19.10.16

O Baldim do Furadouro

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2003)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Quem, nascido depois dos anos 40, frequenta, hoje, a zona sul da praia do Furadouro, não faz ideia nenhuma de como era a paisagem e o ambiente que se vivia naquela época por essas paragens. Antes de surgir a toponímia em vigor – parte dela atribuída em finais do séc. XIX e outra posteriormente, até aos nossos dias, com a abertura de novos arruamentos –, a zona sul da praia era denominada “o Baldim”, nome mantido numa rua actual.
Era ali que estavam instalados os armazéns dos mercantéis, nalguns dos quais se preparava e comercializava o peixe, e noutros se tratava e se expunha, para venda, o escasso, adubo natural composto por restos do pescado.
Era também naquele local que se concentrava a maior quantidade de palheiros habitados pelos pescadores, os quais chegavam a ficar quase soterrados, com areia até ao telhado, quando os ventos mais fortes a sacudiam e a arrastavam contra eles. As abegoarias, onde as companhas guardavam o gado e os apetrechos da pesca, completavam a paisagem daquela zona piscatória, praticamente vedada a veraneantes.
A Rua das Companhas (antiga zona do Baldim), ao sul da Praia, nos anos 40. Repare-se
no piso de areia e no barco da Companha ali estacionado, para se proteger das marés vivas
A praia de lazer, essa era no norte, onde se situavam as barracas dos banheiros e se pescava com menos frequência, deixando os banhistas mais libertos do incómodo dos bois enquanto puxavam as redes, e do peixe estendido no areal. Essa azáfama acontecia no sul, onde as ruas que hoje conhecemos como Mercantéis, dos Lavradores, das Companhas, etc., a partir da Avenida Tomaz Ribeiro para o lado do mar, tinham como piso a areia da praia, e ali descansavam, muitas vezes, os barcos, refugiados das marés vivas que galgavam a praia e a fustigavam com as suas águas turbulentas.
No lugar onde se encontra a casa pré-fabricada da Capitania, perto do actual Café Concha, mas um pouco mais para junto do mar, que ao tempo estava bastante afastado da costa, havia uma grande elevação de areia formada por uma duna que tinha início em frente da actual Rua dos Mercantéis e se prolongava até ao elegante chalé do Sr. Matos. Esse sítio elevado era conhecido por Alto das Praças, por ali se encontrar um armazém do peixe dum conceituado negociante de pescado conhecido por esse nome.

Como numa gare de estação, onde as pessoas descansavam e conversavam enquanto não chega o comboio, também no Alto das Praças os mercantéis e mercantelas, as peixeiras e as mulheres que trabalhavam nas lotas da sardinha sentavam-se a conversar, enquanto não avistavam no mar as calas ou arinques que indiciavam a breve chegada da rede. Havia então conversas as mais variadas!... Falava-se de tudo ali. Dos negócios do peixe, de acontecimentos trágicos, de infidelidades conjugais. E contavam-se anedotas, algumas com muito sentido de humor, que causavam gargalhadas a muita gente. Lembro-me do Sr. Mendonça, um negociante de escasso que, quando se ria, fazia-o com tal intensidade que as suas gargalhadas contagiavam todos os presentes. Era mesmo frequente ouvir-se dizer: - “Ó mulher, parece que tens as gargalhadas do Sr. Mendonça!”.
Quando se aproximava a saída do lanço, e porque as conversas não chegavam ao fim, fazia-se a despedida com um “logo na rede eu te conto o resto!...”
Os armazéns da sardinha dos mercantéis – todos no sul e perto da praia, para que o peixe acartado pelas mulheres à cabeça levasse o menor tempo possível a transportar desde a lota – estavam distribuídos pelas Ruas do Comércio, dos Mercantéis, dos Lavradores e das Companhas. Nos anos 40, dois deles postavam-se em pleno areal da praia, onde actualmente só existe mar. Eram os armazéns de Eduardo Vilas e do Soares.
Ainda mais para sul, seguindo a mesma rota, e perto da costa, ficava o lindo palheirão do Palavra, construído em cima duma duna, rodeado de chorões.
Consumados os lanços com a venda dos lotes aos mercantéis, e depois de acartado o peixe para os respectivos armazéns, ecoava naquelas redondezas da praia uma enorme vozearia, cujos sons mais pareciam uma sinfonia musical. Era o falatório dos pescadores, o pregão das peixeiras, o murmúrio do mar, o toque das campainhas ao pescoço dos bois no seu contínuo labor, o tinir dos martelos repregando as caixas com a sardinha que saía dos armazéns em laboração, os pescadores cantando o “Bendito” no arribar dos barcos, o piar das gaivotas sobrevoando as redes. Esses momentos de magia, feitos de som e beleza, ainda hoje perduram na minha memória. Como perdura o sabor das sardinhadas que se realizavam em plena Rua dos Mercantéis, ao tempo Bartolomeu Dias, toda composta de areia.
Livro à venda na Secretaria da Paróquia de Ovar
Uma grande fogueira, que mais parecia a do São João, acesa e alimentada com canastras burriqueiras e caixas velhas usadas no peixe, servia para assar as sardinhas há poucas horas saídas do mar e que agora serviam de refeição para as pessoas que trabalhavam no armazém, saboreadas de mistura com a boroa do Jerónimo do Carregal e regadas com o vinho da loja do Couto e de outras tabernas do Furadouro.
Ao recordar a praia do Sul do Furadouro dos anos 4º, apetece-me dizer como o poeta António Nobre, numa época ainda mais distante, quando, em Paris, recordava as romarias e procissões da sua pátria: “Qu’é dos pintores do meu país estranho,/ Onde estão eles que não vêm pintar?”
Hoje, quem visitar ou frequentar esta zona do Furadouro, já não distingue a praia do Sul da do Norte, porque ambas se converteram em estância balneares que, no Verão, se enchem de gente, gozando o seu belo areal. Um areal com menos poesia do que outrora, já sem bois, sem barcos, sem redes, e sem o barulho mágico que ecoava e se esvaía no ar!...

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de junho de 2003)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/10/o-baldim-do-furadouro.html

3.8.16

Horácio Lopes – O Piquica

Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2016)
TEXTO: Orlando Caió

Horácio "Piquica" sentado numa pipa
na rua Júlio Dinis (década de 70)
Em Ovar era conhecido por “Piquica”, termo que habitualmente pro­nunciava, mas o seu verdadeiro nome era simplesmente Horácio Lopes, nascido em Ovar a 3 de Fevereiro de 1928, na rua Rodrigues de Freitas, filho de Manuel Maria Lopes e de Ana Antónia Moreira.
O Horácio era uma humilde figura de estatura mediana, rosto moreno e quase sempre descalço, com notória dificuldade em se expressar.
O seu vocabulário era bastante pobre. Poucas eram as palavras que conseguia articular com clareza, à exceção de algumas como, por exemplo, olá, pão, água, vinho, e mais três ou quatro palavrões.
Costumava vaguear pelas tascas existentes junto à estação dos cami­nhos de ferro, pela taberna e loja de mercearia do Zé Rico, junto ao Jardim dos Campos, pelas tascas da Arruela e Praça da República. Pelo caminho ia parando e cumprimentando as raparigas com um “Olá”, e se visse alguém a fumar dirigia-se à pessoa, pedindo um cigarro.
Com alguma frequência entrava no estabelecimento de almoços, vinhos e petiscos do Manuel Mal-Casado, do Gato Preto e do João Gomes, no intuito de encontrar uma alma cari­dosa que lhe pagasse um bolinho de bacalhau, uma isca de fígado ou, com muita sorte, uma sande de bacalhau frito e um copo de vinho.
Costumava ajudar em fretes que outras figuras populares faziam, e nas décadas de 1950 e 1960, era habitual vermos passar o Horácio ajudando a empurrar um carro de mão de rodas altas conduzido por outra figura popular, concretamente o João “Pata­chão”, pela então estrada de paralelo em frente à antiga fábrica de telhas e tijolos da SIOL, onde atualmente se situa a rua de Timor.
O Horácio era um fumador in­veterado. Por vezes, na Praça da República e a pedido de alguém, para obter um cigarro entrava em parceria com outra figura típica, o Zé Luta, o qual consentia em levar um ou dois “borrachinhos” aplicados pelo “Piquica” e, logo a cena se invertia, com o Piquica a encher a boca de ar e a consentir um ou dois “borrachinhos” aplicados pelo “Zé Luta”.
Pela demonstração recebiam dois tostões cada um, dinheiro que logo era gasto em cigarros.
Finalmente, na década de 1980, alguém se lembrou do Horácio, e em boa hora decidiram interná-lo no asilo da Santa Casa da Misericórdia de Ovar.
Terminava assim um longo período de carências de toda a ordem, das quais o Horácio seria o menos culpado.
Não é sem alguma emoção que recordo esta humilde figura, que bem conheci ao longo de quase 40 anos.
Horácio Lopes, o popular “Piquica”, faleceu em Ovar, na referida instituição que o acolhera, no dia 12 de Dezembro de 1991, com 63 anos de idade.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de julho de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/08/horacio-lopes-o-piquica.html

6.7.16

Fátima na Imprensa Vareira – Há 60 anos: o “milagre do sol”

Jornal JOÃO SEMANA (01/11/1977)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Em 13 de Outubro passado completaram-se 60 anos sobre a última das seis aparições da Cova da Iria. Entre os muitos milhares de peregrinos presentes às solenes comemorações, encontravam-se, segundo noticiou a imprensa, 30 testemunhas do célebre “milagre do sol”. Este fenómeno, ocorrido em 13/10/1917, concitou sobre Fátima, a atenção de Portugal inteiro, envolvido, então, na 1.ª Grande Guerra, e deu maior credibilidade aos acontecimentos que ali vinham ocorrendo desde 13 de Maio [1].
Por uma busca sumária que fizemos, ficou-nos a impressão de que o “João Semana”, jornal de formação católica, então com três anos de idade, foi o único periódico local a noticiar um assunto de tanto impacto popular e, mesmo assim, apenas em 28 de Outubro, 15 dias após a última aparição.
Os outros jornais vareiros de então – “A Discussão” (1895-1919), “A Pátria” (1908-1928), “O Ovarense” (1883-1921), e o “Ideal Vareiro” (1916-1918) – silenciaram, por completo, o acontecimento, decerto propositadamente, já que os ventos sócio-políticos da época eram manifestamente anticlericais, e porque as manifestações de Fátima logo foram interpretadas pelas forças republicanas como manobra reacionária.

Representação da aparição de Nossa Senhora aos pastorinhos (Lúcia, Francisco e Jacinta)

Admira tanta precaução do “João Semana” em relação aos fenómenos da Cova da Iria, ao constatarmos que deu razoável e imediata cobertura a umas pretensas aparições ocorridas no lugar do Barral, São João da Vila de Chã, concelho de Ponte da Barca, em 10 e 11 de Maio de 1917, vésperas, portanto, da 1.ª aparição de Fátima [2].
Teriam as novas de Fátima tardado em chegar aqui? Teria sopesado a favor do crédito do Barral o facto de o seu caso ter vindo a público no semanário católico “A Ordem”, do Porto, de 9 de Junho imediato? Seria apenas por acatamento às reservas impostas pela Igreja relativamente aos acontecimentos de Fátima? Ou um pouco por prudência, para evitar as críticas dos detractores, escandalizados por tantas manifestações do sobrenatural?
Certo é que os responsáveis do “J. S.” só se dispuseram a quebrar o silêncio depois de todo o País ter comentado, estupefacto, o “milagre do sol” através de reportagens da grande imprensa, nomeadamente do "Século" do dia 15 imediato [3].


Em 28 de Outubro, o nosso jornal não só noticiou, finalmente, as aparições, como ainda teceu solenes considerações, prevendo para Fátima aquilo que veio a acontecer mais tarde – transformar-se em grande centro internacional de devoção mariana.
Eis o curioso texto, não assinado, por certo escrito pela redação do “Mensageiro Parochial”, de Viseu, um dos semanários que se publicavam em duplicação com o “João Semana”:

Jornal "João Semana" (28/10/1917)
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O tema volta na semana seguinte (4/11/1917), na 3.ª página, na secção "Por aqui e por alli"
Depois de duas notas abordando, respetivamente, os maus jornais e as baixas alemãs na Grande Guerra, vem uma terceira nota nos seguintes termos:
"Falla-se muito em paz. Para que esta seja em breve uma realidade consoladora, devem todos os crentes orar muito.
Já deves ter ouvido fallar, caro leitor, nas apparições de Fátima. Affirma-se que uma creanças d'aquelle logar, tiveram a graça de ver e ouvir Nossa Senhora várias vezes.
Como a Senhora lhes havia annunciado que a última apparição seria no dia 13 d'outubro, ellas assim o fizeram constar, e n'esse dia uma multidão enorme, talvez 50 000 pessoas, vindas de todos os pontos do paiz, alli se reuniu para observar o prodigio.
As creanças dizem ter visto realmente a Senhora n'esse dia e ter-lhes ella recommendado algumas coisas e annunciado o fim proximo da guerra.
Será verdade?
O nosso dever de catholicos é aguardar os acontecimentos e as decisões da auctoridade ecclesiastica."

Oito dias depois, duas locais sobre o assunto. Uma na secção "Por aqui e por alli" e outra com o título "A propósito".
Diz a primeira:
"A Associação de Registo Civil vergonha da nação portuguesa, representou ou vai representar ao Governo para que jamais consinta casos como o de Fátima. / Ó Ceus! Aqqueles demonios um dia são capazes de pedir ao Governo que mande apagar o sol para que elle não allumie nem aqueça os que crêem em Deus! Que ferocidade e que estupidez!" 

Eis parte da segunda transcrição:
“A Propósito / Ora sempre hão-de fazer o favor de nos dizer se acreditar no milagre de Fátima será coisa mais criminosa que acreditar no bacalhau a tres vinténs”. (O Governo tinha prometido esse preço, embora o bacalhau custasse oito tostões…).
Como em números anteriores, em 18/11 um anúncio convidava os leitores a comprar postais ilustrados na Rua Júlio Dinis, 33. Desta vez, porém, avisa que vendiam “alguns com os pastorinhos de Fátima a quem Nossa Senhora apareceu”.
Talvez por censura interna do jornal (de Ovar? De Viseu?), o anúncio de 23/12, em vez de “apareceu” trazia: “se diz ter aparecido”.

NOTAS
[1] – As aparições com exclusão da de Agosto, tiveram lugar nos dias 13. A de Agosto foi a 19, data aproveitada em 1977 como comemorativa da elevação de Fátima a vila.
[2] – Em 01/07/1917 noticiava o “J. S.”:


Um rapazito de dez anos, chamado Severino Alves, pastor, filho duma pobre e virtuosa viúva, é o protagonista do caso".

E segue a transcrição de “A Ordem” de 09/06/1917, em que se narra ir o pequeno pastor, em dia da Ascensão, a caminho do monte, eram cerca das 8 horas da manhã, rezando o terço, quando um relâmpago o impressionou. “Dá mais uns passos, atravessa um portelo e defronta uma Senhora, sentada, com as mãos postas, tendo o dedo maior da mão direita destacado, em determinada direção. O seu rosto era lindo como nenhum outro, toda Ela cheia de luz e esplendor, de maneira a confundir a vista, cobrindo-lhe a cabeça um manto azul, e o resto do corpo um vestido branco. Logo que o pequeno vidente A viu, caiu para o lado surpreendido com tal acontecimento. Readquirido animo, levantou-se e exclamou: “Jesus Cristo”. Nesse mesmo momento desapareceu a visão”. (…)
No dia seguinte, à mesma hora e no mesmo local encontrou a mesma Senhora. “Nesse dia o rosto da Aparição despreendia-se em sorrisos. Quando A viu caiu de joelhos e disse um pouco surpeeendido (para não dizer assustado), o que o seu pároco lhe havia aconselhado: – Quem falou ontem fale hoje. Então a Aparição com uma voz que era um misto de rir e cantar, diferente do falar de todos os mortais que tem visto, tranquilizou-o dizendo-lhe: “Não te assustes. Sou Eu, menino. E acrescentou: “Dize aos pastores do monte que rezem sempre o terço, e que os homens e mulheres cantem a Estrela do Céu. E as Mães que têm filhos lá fora, que rezem o terço, cantem a Estrela do Céu e se apeguem comigo, que hei-de acudir ao Mundo e aplacar a guerra”. (…)
Depois de observar que, com a comoção, o pequeno não mais quis voltar ao local da aparição, “A Ordem” acrescenta: “A criança, apesar da sua extrema pobreza, tem uma aparência sadia, sem aspecto e antecedentes nervosos que permitam supor que fosse uma alucinação, aliás repetida. É uma criança que é considerada na freguesia, gozando fama de verdadeira, e não mentirosa”.
E a notícia continua, explicando que a “Estrela do Céu” é uma antiga oração já esquecida naquela terra e que o povo considerava a aparição como de Nossa Senhora.
Em 8/7, 15/7 e 22/7, “J. S.” volta ao assunto, a propósito da antífona “Estrela do Céu”, e na semana seguinte (29/7) afirma que a autoridade eclesiástica iniciou o processo e que, enquanto o arcipreste local concluía pela veracidade dos factos, milhares de pessoas citavam milagres e deslocavam-se ao Barral.
O probo historiador e professor universitário P.e Avelino de Jesus Costa, que se debruçou sobre o assunto, admite a veracidade dos factos:

[3] “O Século” do próprio dia 13, em 1.ª página, anunciava: “Em pleno sobrenatural! As Aparições de Fátima / Milhares de pessoas concorrem a uma charneca nos arredores de Ourém, para verem e ouvirem a Virgem Maria”.
O jornalista Avelino de Almeida foi, como enviado especial, disposto a fazer a reportagem da aparição e, como livre pensador, ia preparado para escalpelizar o anunciado “sinal” previsto para aquele dia. Do que observou escreveu com imparcialidade, logo no dia 15, em 1ª página, um artigo intitulado: “Coisas espantosas! Como o Sol bailou ao meio dia em Fátima. As Aparições da Virgem – Em que consistiu o sinal do Céu – muitos milhares de pessoas afirmam ter-se produzido um milagre – A guerra e a paz” e uma fotografia dos três pastorinhos (a única ilustração vinda na 1.ª página), acompanhava o texto.

Em 13 de Outubro de 1917: Grupo de pessoas olhando para o céu. Gravura gentilmente cedida pela “Voz de Fátima”. Esta mesma cena veio reproduzida na “Ilustração Portuguesa” de 29/10/1917, embora apenas com as personagens do lado direito (cf. Sebastião Martins dos Reis, “Síntese crítica de Fátima”). Não foi possível constatar se algum vareiro esteve nesse dia em Fátima entre as 50 000 testemunhas do “milagre do Sol”

A “Ilustração Portuguesa”, revista de grande tiragem, apresentou em 29 de Outubro, a páginas 353-356, uma reportagem do mesmo jornalista com nada menos que onze fotografias tiradas em 13 de Outubro. Do artigo, que tinha por título “O Milagre de Fátima” (Carta a alguém que pede um testemunho insuspeito”) transcrevemos a parte final: “E, quando já não imaginava que via alguma coisa mais impressionante do que essa rumorosa mas pacífica multidão animada pela mesma obsessiva ideia e movida pelo mesmo poderoso anseio, que vi eu ainda de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, à hora prenunciada, deixar de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o astro-rei – disco de prata fosca – em pleno zénite, aparecer e começar dançando n’um bailado violento e convulso, que grande número de pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes cores revestiu sucessivamente a superfície solar… / Milagre, como gritava o povo; fenómeno natural, como dizem sábios? Não curo agora de sabê-lo, mas apenas de te afirmar o que vi… o resto é com a Ciência e com a Igreja…”
Outras publicações, mesmo humorísticas, comentaram e glosaram as aparições de Fátima, como “O Século Cómico” (Suplemento de “O Século”) de 29/10/1917.

18.6.16

O Furadouro e o Mestre Pintor Adriano Sousa Lopes

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2016)
TEXTO: Manuel Cascais de Pinho e F. P.

O pintor Adriano Sousa Lopes junto ao seu quadro “Os Pes­cadores”

Na capa do “João Semana” de 15 de setembro de 2015 publicámos uma foto com o pintor
Adriano Sousa Lopes junto da sua obra “Os Pes­cadores”, que retrata a pesca artesanal em Ovar, e deixámos a seguinte pergunta no ar: alguém poderá fazer luz sobre a sua localização?
Como a resposta tarda a chegar à nossa redação, vamos partilhar com o leitor alguns excertos de um texto da autoria do saudoso Manuel Cascais de Pinho, intitulado “O Furadouro e o Mestre Pintor Sousa Lo­pes”, e que veio a lume no “Notícias de Ovar” de 30 de abril de 1970:

“(...) esse chalé, do ilustre vareiro António Valente de Almeida quan­do, no verão desse já muito distante 1927, ali passou uma temporada (cer­tamente curta) o pintor já de muito renome, Sousa Lopes (Adriano) que, muito pouco tempo depois e por o Grande Mestre Columbano atingir o limite de idade, viria a ser nomeado Director do Museu Nacional de Arte Contemporânea.
(...) Ora aquele cha­lé e o palheiro do Pinto Palavra, situados num alto plaino, dominavam por isso uma vasta orla da praia que então fica­va lá em baixo a umas boas dezenas de metros e para onde se descia por uma inclinação tornada mais suave, certamente pelo caminhar constan­te, safra após safra, das mulheres transportando à cabeça, em canastras, a sardinha "vivinha do nosso mar" para aquele armazém (como acontecia aliás para com os ou­tros) onde era então em fresco acamada em caixas ou se, salgada em dornas, muitos dias depois prensada em barricas mas que, num e noutro caso iriam, levadas pelo caminho de ferro (que movimento então, dado pela indústria de pesca, não tinha nesses dias a nossa estação!...) espalhar­-se pelo Alto Douro, Trás-os-Montes, Beira Alta e Beira Baixa, já que não havia, como hoje, camionetas a transportá-la em curto espaço de tempo para qualquer ponto.

Estudo para Pescadores (vareiros do Furadouro)

(...) Ora foi nesse verão de 1927, e nesse alto com ampla vista sobre a praia onde se desenrolava a faina piscatória, que Sousa Lopes montava o seu cavalete e onde, absorto no seu trabalho e indiferente aos olhares que um ou outro mirone para lá lançasse, ia transmitindo à tela o colorido do nosso mar em fundo e, em primeiro plano, uma faceta da vida dos nossos pescadores tal como os seus olhos viam e a sua alma de artista, que o era e grande, o soube interpretar.
Ali nasceu, e assim, o seu quadro Os Pescadores ou Os Pescadores do Furadouro que esteve, ou ainda estará no Museu de Arte Contemporânea”.

Já se sabe que esta obra de Sousa Lopes não se encontra no referi­do Museu. Onde estará a célebre tela sobre a Arte Xávega? Se algum leitor tiver essa preciosa informação, envie-nos, por favor, um e-mail para jornaljoaosemana@sapo.pt. Ovar agradece! F. P.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de junho de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/06/o-furadouro-e-o-mestre-pintor-adriano.html

ADENDA -----------------------------------------


Capa do jornal "Notícias de Ovar (30 de abril de 1970)


Leia AQUI o texto da primeira página

Leia AQUI a continuação do texto (pág. 8)

13.5.16

Fátima em Ovar – A primeira Imagem do Imaculado Coração de Maria

Jornal JOÃO SEMANA (15/05/2016)
TEXTO: Manuel Pires Bastos


Imagem do Imaculado Coração de Maria
da Igreja Matriz de Ovar
Nos textos aqui publicados em 1 de julho de 2005 – Ovar no culto de Fátima – Uma imagem histórica na Igreja Matriz – e em 1 de maio de 2014 – Ovar possui a primeira imagem do Imaculado Coração de Maria –, quisemos dar a conhecer aos estudiosos de Fátima que a imagem deste título mariano que se venera na Igreja Paroquial de Ovar, desde 12 de julho de 1946, esculpidacom o coração segundo a revelação feita à Irmã Lúcia da Dorese assinada porFrança esc. Porto 1946”, é três anos mais antiga do que a imagem da mesma invocação, da autoria de José Ferreira Thedim, que se encontra no Carmelo de Coimbra, onde deu entrada três anos depois, em 25 de março de 1949.
(Se o leitor quiser, poderá encontrar os dois primeiros trabalhos na internet, googlando os seus próprios títulos.)

CLIQUE nos links a azul


O Imaculado Coração de Maria
Quando, em 1942, se tornou conhecida a revelação do Imaculado Coração de Maria e a devoção dos primeiros sábados pedidas por Nossa Senhora a Lúcia em Pontevedra (13/06/1925 e 15/02/1926) e em Tuy (13/06/1929), as Religiosas do Sagrado Coração de Maria (R.S.C. de Maria) quiseram editar uma estampa correspondente à aparição. Recorrendo às Irmãs Doroteias, e conseguindo de Lúcia informações importantes, fizeram uma montagem fotográfica a partir das aparições e um esboço definitivo, por ela corrigido e que foi aprovado em dezembro de 1943 pelo Cardeal Patriarca e pelo Bispo de Leiria. Deste trabalho resultaria também a Imagem Peregrina, benzida em 13 de maio de 1947.
Tendo Madre Chantal, Superiora das R.S.C.M., chamado a Lisboa, em abril de 1944, o escultor José Ferreira Thedim, com o objetivo de colocar em cada um dos seus colégios uma estátua do Coração de Maria[1], tudo parecia indicar que seria finalmente cumprido o desejo das Irmãs, felizes por verem ligados à mensagem de Fátima o nome e a ação do seu Instituto[2].
Não podendo José Thedim aceitar a encomenda da escultura pretendida, obrigaram-se as Irmãs do S.C.R. de Maria a procurar outro artista, que lhes forneceu uma imagem diferente, que passou a presidir ao seu Colégio de Lisboa.

Fig. 1 - Desenho do Coração Imaculado de Maria, com correções (do manto, das mãos, do coração), feitas a lápis pela Irmã Lúcia (1943), respeitadas na 1.ª versão da escultura da Casa França (na fig. 2)
Fig. 2 - A 1.ª imagem do Coração Imaculado de Maria esculturada entre 1945/46 pela Casa França, que seguiu com rigor as indicações da Irmã Lúcia, e que se encontra desde 1946 na Igreja Matriz de Ovar 

“Perdida” e encontrada
Antunes Borges, antigo Reitor do Santuário de Fátima, num estudo sobre este tema, afirma: “Longa foi a expectativa, não chegando sequer a aparecer aquela primeira imagem que devia servir de modelo para todas as outras”.
Mas essa imagem, afinal, não desapareceu. Foi integralmente executada, exibindo todos os pormenores sugeridos pela Irmã Lúcia e aprovados em dezembro de 1943. Nós a identificámos em 2004, na Igreja Matriz de Ovar, com a data “1946” e o nome “Casa França”, do Porto, onde foi adquirida, em 1946, por uma família ilustre e devota de Ovar, como contributo para as comemorações do Tricentenário da Padroeira nesta vila.
 Por despacho de 8/6/1946, o Bispo do Porto, D. Agostinho de Jesus e Sousa, permitiu que “a imagem do Coração de Maria da Igreja Paroquial de Ovar fosse substituída por uma outra maior e melhor, que concentre as duas devoções na mesma imagem: Senhora de Fátima e Imaculado Coração de Maria – segundo revelação de Fátima”.

A primeira em Portugal
Em 1949 José Ferreira Thedim apresentou
uma 2.ª versão da imagem do Imaculado
Coração de Maria, três anos depois da de Ovar
O Padre Ribeiro de Araújo esclarece que essa imagem, “executada segundo indicações da vidente de Fátima, Lúcia”, foi conduzida em procissão da Capela de Santo António para a Igreja e altar do Coração de Maria, e que “ao passar diante dos Paços do Concelho procedeu-se à coroação da imagem, no meio de vibrantes cantos religiosos entoados por uma multidão de fiéis”[3].
O “João Semana” de 25/07/1946 esclarece, referindo-se à imagem, ser ela “a primeira que em Portugal de esculturou segundo as indicações da vidente de Fátima”.
Tudo permaneceu obscuro, a ponto de nem o Reitor do Santuário, Antunes Borges, vinte anos depois lhe descobrir o rasto.

Qual o verdadeiro autor?
Por nós, chegámos a aventar a hipótese de que Thedim a tenha iniciado e, depois, porque ocupado com outras tarefas, a tenha cedido à Casa França. Mera hipótese. Até porque Albano França, um artista consagrado que a assinou (embora com o nome da firma), e tendo produzido outra imagem semelhante, pouco posterior (Igreja da Sr.ª da Conceição, Porto), poderá tê-la criado, servindo-se dos esboços de que Thedim também se serviu para outros trabalhos.
Entendemos agora, após alguma pesquisa e ponderação sobre datas e compromissos de José Thedim, que após a sua ida a Lisboa, o mestre se terá descomprometido com as R.S.C. de Maria em razão dos seus contactos profissionais com os responsáveis de Fátima, já envolvidos nos preparativos para a celebração, em 1946, do Tricentenário da Padroeira de Portugal e na criação de novas imagens da Senhora de Fátima, mais lineares nas suas vestes, de acordo com a vontade da Irmã Lúcia e como já é patente no esboço aprovado pelo Cardeal Patriarca e pelo Bispo de Leiria, imagens essas que pudessem substituir a da Capelinha em previsíveis saídas devocionais, tal como acontecera na memorável visita à capital portuguesa de 9 a 12 de abril de 1942.

Imagem do Imaculado Coração de Maria
da Igreja Matriz de Ovar, quando

da sua conclusão
Uma imagem para Lúcia
Liberto dos trabalhos que o ocuparam e querendo prendar a Irmã Lúcia na sua entrada para o Carmelo, pois sabia da vontade da vidente de ser criada uma imagem que “representasse a posição tomada por Nossa Senhora quando revelou aos Pastorinhos o seu Coração Imaculado” –, até teria preferido que fosse essa a imagem a peregrinar pela Europa em 1947[4] –, José Ferreira Thedim esculpiu, em 1948, uma imagem do Imaculado Coração de Maria, e, por esta não ter agradado totalmente à Irmã, entregou-lhe uma segunda, esta do seu total agrado, em 25/03/1949 (três anos depois da de Ovar)[5].
A propósito desta imagem, escreveu Lúcia a uma amiga (D. Maria Teresa Pereira da Cunha), em 11 de agosto de 1949:
“A imagem do Coração Imaculado de Maria não consegui que se fizesse senão após a minha vinda para o Carmelo. Todas as dificuldades desapareceram como por encanto e apenas após o tempo para o Escultor a fazer”[6].

O resto da História
Vinda de Espanha, Lúcia regressou ao Porto em 16 de maio de 1946, desconhecendo que ali mesmo, na Casa França, da Rua da Fábrica, se ultimava a belíssima imagem que ela imaginou vir a ser o modelo de todas as outras, e que, dois meses depois, partiria para Ovar, onde foi acolhida com entusiasmo, enquanto, por desconhecimento dos factos, Lúcia e a grande maioria dos devotos de Fátima, a julgaram “desaparecida”.
Marco Daniel Duarte, na sua dissertação de doutoramento “Fátima e a criação artística (1917-2007): o Santuário e a Iconografia – a arte como cenário e como protagonista de uma específica mensagem”[7], seguindo a opinião então vigente, aponta ainda a imagem do Carmelo como a primeira (de uma segunda fase iconográfica) do Imaculado Coração de Maria, referindo, no entanto, a nossa investigação de 2005:
“Vejam-se, não obstante o que dizemos, as investigações de Manuel Pires Bastos publicadas no jornal ‘João Semana’, no qual se afirma, com argumentação muito plausível, que ‘a primeira imagem [do Imaculado Coração de Maria] está em Ovar”. 

Os pastorinhos de Fátima
Lúcia de Jesus Rosa dos Santos (de dez anos)
Francisco Marto (9 anos)
Jacinta Marto (7 anos)

A um ano das comemorações do Centenário das Aparições de Fátima (1917-2017), 
Ovar orgulha-se por possuir na sua Igreja Matriz, desde 22/07/1946, 
a primeira imagem do Imaculado Coração de Maria
revelado aos pastorinhos na Cova da Iria.

Notas:
[1] Irmã Maria do Carmo, “O Instituto do Sagrado Coração de Maria e o Imaculado Coração de Maria”.
[2] Id.
[3] José Ribeiro de Araújo, “Poalhas da história da freguesia e Igreja de Ovar”.
[4] Carmelo de Coimbra, “Um caminho sob o olhar de Maria”, pág. 318.
[5] A primeira seguiu para o Carmelo de Braga, onde se encontra.
[6] Carmelo de Coimbra, “Um caminho sob o olhar de Maria”, pág. 352.
[7] Marco Daniel Duarte, “Fátima e a criação artística (1917-2007): o Santuário e a Iconografia – a arte como cenário e como protagonista de uma específica mensagem”, Coimbra, 2013. 

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de maio de 2016)

19.4.16

A alquilaria Constantino

Jornal JOÃO SEMANA (01/10/2000)
TEXTO: Mário Miranda

A Alquilaria Constantino, situada no Largo da Estação dos Caminhos-de-ferro, tinha grande movimento no período da minha infância e até 1932/34, chegando a possuir duas parelhas de cavalos, bem tratados pelo seu cocheiro, José Loureiro, e sempre prontos para levar a Arada ou a S. Vicente os brasileiros que desembarcavam na estação, carregados de malas. O transporte era feito em “charabans”, como então se chamavam.
Por vezes, dada a quantidade de malas, estas tinham de ser bem amarradas, já que as estradas a isso obrigavam. E tudo, depois, lá seguia em ordem, sem que os passageiros tivessem de ficar em terra…
Ainda me recordo também de este tipo de carruagem ser utilizado para transportar o médico Dr. Salviano Cunha, pai do saudoso Dr. Mário Cunha, ao posto médico da estação da C.P.. Só que o Dr. Salviano, pouco tempo depois, veio a usar como meio de locomoção uma moto, que julgo ter sido a primeira a chegar a Ovar.
O Sr. Constantino tinha ainda duas “LANDAU”, fechadas com duas portas laterais e quatro lugares – sendo dois à frente e dois atrás  geralmente preferidas para casamentos.

A fina flor de Ovar no casamento do Dr. José de Almeida ("Dr. Almeidinha"), Administrador
 do Concelho e Conservador do Registo Civil, com D. Maria Emília Barbosa de Quadros, em
 16 de outubro de 1897, na Igreja Matriz de Ovar. Foto de Ricardo Ribeiro, pioneiro da Fotografia entre nós. Será este o mais antigo registo fotográfico de rua entre nós?

Os fins-de-semana estavam sempre ocupados com este género de serviço, havendo duas parelhas de cavalos, prevendo a hipótese de aparecer mais do que um casamento. Nunca era por falta de transportes que estes não se realizavam…
Aos cavalos jamais faltava comida, porque o Sr. Constantino transaccionava, em quantidade, fardos de palha. Era frequente receber na estação dos Caminhos-de-ferro vagões de palha vinda do Alentejo. (Mesmo depois de ter acabado com as carruagens, porque os automóveis lhe vieram estragar o negócio, a venda de palha continuou ainda durante anos).
Acompanhei muito de perto a azáfama da Alquilaria, tendo tido oportunidade de conversar, variadíssimas vezes, com o Sr. Constantino, que tinha sempre diversas histórias para contar acerca da sua movimentada vida, diariamente ocupada com os cavalos, as carruagens, os cocheiros.
Nas viagens mais distantes, muito além dos limites do concelho, quase sempre para estrangeiros vindos no caminhos-de-ferro, era ele que conduzia e quem fixava o custo.
Ainda hoje estão de pé os edifícios da sua residência e da Alquilaria, que não sofreram alterações.
Na altura, existiam ainda dois “charabans”: um do Realeiro e outro do Jerónimo. Só que os animais destes não apresentavam o aspecto físico dos do Constantino, e creio mesmo que não faziam grandes percursos.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de outubro de 2000)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/04/a-alquilaria-constantino.html

5.3.16

Jornal “João Semana” esteve na casa do escritor Ferreira de Castro

Ferreira de Castro
Jornal JOÃO SEMANA (15/09/2015)
TEXTO: Fernando Pinto

«Eu devia este livro a essa majestade verde, soberba e enigmática, que é a selva amazónica, pelo muito que nela sofri durante os primeiros anos da minha adoles­cência e pela coragem que me deu para o resto da vida.
(...) A luta de cearenses e maranhenses nas florestas da Amazónia é uma epo­peia de que não ajuíza quem, no resto do Mundo, se deixa conduzir, veloz e como­damente, num automóvel com rodas de borracha - da borracha que esses homens, humildemente heróicos, tiram à selva misteriosa e implacável.» (Ferreira de Castro, no Pórtico do romance “A Selva”)

Há muito que o padre Manuel Pires Bastos queria juntar os cola­boradores do jornal “João Sema­na” para que pudessem conviver e trocar impressões sobre este pe­riódico centenário que muito tem feito pela cultura e historiografia vareiras. Em 10 de agosto o desejo do Sr. Abade concretizou-se, e as pessoas que apareceram nesse dia na redação foram conhecer alguns lugares dos concelhos de Ovar, Es­tarreja e Oliveira de Azeméis.

Ossela, terra natal do escritor Ferreira de Castro

A casa do escritor Ferreira de Castro, em Ossela (Oliveira de Azeméis)
FOTO: Fernando Pinto

O ponto alto do passeio foi a visita à casa onde nasceu, em 24 de maio de 1898, o escritor José Maria Ferreira de Castro (na foto).
A tarde escaldava quando o grupo de Ovar chegou ao lugar de Salgueiros, em Ossela. (Os pneus da velha carrinha da Paró­quia, conduzida pelo artista Mar­cos Muge, puderam arrefecer um pouco depois de terem andado uns bons quilómetros lá para os lados da serra).

Os colaboradores do jornal "João Semana" na casa de Ferreira de Castro

Já no interior da Casa­-Museu Ferreira de Castro, foram­-nos mostrados a adega e, no piso superior, a cozinha, a sala e os dois quartos – o de sua mãe Maria Rosa e o seu –, onde se encontram a mala e os sapatos que o escritor usou na viagem reali­zada em 1939 à volta do mundo (na foto).

 A mala e os sapatos do escritor Ferreira de Castro
FOTO: Fernando Pinto
Ferreira de Castro, que também abraçou a carreira de jornalista, é um dos autores portu­gueses mais traduzidos de sempre, sendo as suas obras “Emigran­tes” e “A Selva”, as mais lidas. Esta última foi escrita de 9 de abril a 29 de novembro de 1929, e foi impressa “em princípios de maio de 1930, andava eu, de novo como enviado de O Século, em viagem pelos Aço­res”, lembrou o escritor osselense nas páginas iniciais de “A Selva”. (Partiu aos 12 anos de idade para o Brasil, vivendo no Seringal Pa­raíso, no interior da Amazónia, e posteriormente, em Belém do Pará, na foz daquele rio brasileiro. Viria a falecer em 1974, com 76 anos de idade, sendo sepultado, a seu pedi­do, na Serra de Sintra).
Antes de descer a escadaria de pedra daquela casa de meados do século XIX, de traça rural, o grupo de Ovar deixou algumas palavras no último dos muitos livros de visi­tas – o escritor José Saramago tam­bém passou por lá em 21 de maio de 1999, no Centenário do Nascimen­to de Ferreira de Castro –, e depois atravessou a rua e entrou na Biblio­teca de Ossela, edifício doado pelo escritor, onde se podem apreciar, para além das suas obras, entre outro espólio, alguns quadros de artistas oferecidos ao romancista.

Outros lugares visitados
Da parte da manhã, o primei­ro ponto de paragem foi Pereira Jusã, antigo lugar e concelho, da freguesia de Válega, Ovar, com o seu pelourinho (na foto). O artista Marcos Muge tem ali um pequeno painel de azulejo doado aos vale­guenses em 2 de junho de 2014, por altura das comemorações dos 500 anos da outorga do Foral Ma­nuelino a Pereira Jusã.

Pereira Jusã, antigo lugar e concelho, da freguesia de Válega, Ovar
FOTO: Fernando Pinto

Em Estarreja, o grupo entrou na Igreja de São Tiago de Beduí­do e pôde dar uma espreitadela na Casa da Areosa, do séc. XVIII.
Na Bemposta, Oliveira de Aze­méis, visitámos o centro histórico do antigo concelho e a casa e ca­pela de São Gonçalo, propriedade do Juiz Desembargador Carlos Joa­quim Almeida e Sousa (na foto), assumido vareiro, que recebeu de braços abertos os seus conterrâneos.


A Quinta do Barão, em Lou­reiro, foi o local escolhido para os colaboradores do jornal retempera­rem forças (na foto).

Na Quinta do Barão, em Lou­reiro
FOTO: João Elvas

Depois de um anima­do almoço, partimos em direção ao Parque de La Salette, onde desfrutámos do ambiente festivo que se vivia naquele santuário.
O passeio terminou no aprazível Parque Temático Molinológico localizado ao longo dos rios Ul e An­tuã, nas freguesias de Ul e Travanca, região de molei­ros e moinhos, onde ainda se pode assistir às várias fases do fabrico do pão.

O grupo de Ovar no Parque Temático Molinológico, em Oliveira de Azeméis. 
Da esq. para a direita: Fernando Pinto, Teresa Queirós, padre Bastos, Joaquim Castro,
 David Tavares, Joaquim Fidalgo, Manuel Malícia, Aníbal Gomes, José Pinto,
João Elvas, Ilda Elvas e António Valente (foto de Marcos Muge)

A “família” do “João Sema­na” está bem viva, e espera que os ovarenses sigam os seus passos apoiando este jornal que resistiu a duas Grandes Guerras, e que dese­ja continuar a cumprir o papel que lhe foi conferido há 101 anos, por­que um povo sem memória é um povo sem futuro.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de setembro de 2015)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/03/jornal-joao-semana-esteve-na-casa-do.html

Recordando a “Casa do Concelho de Ovar em Lisboa”

Jornal JOÃO SEMANA (15/12/2006)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Lisboa, como todas as grandes cidades cosmopolitas, acolhe dentro dos seus muros pessoas oriundas de localidades nacionais e estrangeiras que, para poderem confraternizar mais assiduamente com os seus conterrâneos, fundam colectividades.
Na capital existiam, em 1950, entre outras, as “Casas de Arganil”, das “Beiras”, do “Alentejo”. Talvez por isso, José Augusto da Cunha Lima insistiu, desde então, numa campanha, a que o extinto semanário “Notícias de Ovar” deu cobertura, para que fosse fundada a “Casa do Concelho de Ovar em Lisboa”.


Teve lugar em 19 de Junho de 1952 uma primeira reunião de ilustres ovarenses que aderiram a esta causa, tendo sido ali constituída uma comissão organizadora, formada pelos seguintes bairristas vareiros: Afonso Pereira de Carvalho, António Pinho Branco, Armando Oliveira Soares, Artur de Oliveira Faneco, Francisco de Oliveira Faneco, José André Redes, José Augusto da Cunha Lima, Manuel de Oliveira Ventura e Pelágio José Ramos.
Assim se fundava, em Junho de 1952, a “Casa do Concelho de Ovar em Lisboa”. As primeiras reuniões foram realizadas ao ar livre, beneficiando do arvoredo amigo de uma esplanada da Avenida da Liberdade. Posteriormente, realizaram-se na federação da Sociedade de Recreio, à Rua da Palma, onde reuniu a primeira Assembleia Geral, para aprovar os seus Estatutos. A Secretaria ficou instalada na casa de João André Boturão e, depois, na de Artur de Oliveira Faneco.

Num dos passeios fluviais a Vila Franca de Xira

A primeira sede situou-se no 3.º andar do prédio n.º 54 da Avenida da Liberdade. Mais tarde, a 15 de Março de 1959, em sessão solene presidida pelo Presidente da Câmara Municipal de Ovar dessa época, foi inaugurada uma nova sede na Calçada dos Santos, nº 37, 1º andar, junto à Igreja de Santos-o-Velho e aos jardins da embaixada de França, no coração da Madragoa, onde residiram e ainda residem tantos conterrâneos nossos, muitos deles lá registados pelos baptismo ou matrimónio naquele vetusto templo, em diversas gerações.
Em Dezembro de 1953 a Casa tinha 526 sócios. Em 18 de Junho de 1955 cantou-se pela 1.ª vez o hino da colectividade, com música do Dr. Elísio de Matos e letra do Dr. António Rasgado Rodrigues: ‘Nos quatro cantos do mundo, / Gente de Ovar se perdeu; / e o seu amor vagabundo, / Jamais a Pátria esqueceu’. Foi ensaiado pelo Dr. Elísio de Matos, na sua própria casa, a um grupo coral de homens e senhoras membros da Agremiação, grupo esse que viria a actuar na sede própria, na Avenida da Liberdade, então sob regência do Sr. Covas.

Exercerem a presidência da direcção da “Casa do Concelho de Ovar em Lisboa”:
1 - Dr. Albino Borges de Pinho (1953-1957)
2 - Mário André Boturão (1959-1962)
3 - José Augusto da Cunha Lima (1963-1966)
4 - Salviano Zagalo de Lima (1967-1970)
5 - José Augusto da Cunha Lima (1971-1972, pela 2.ª vez)

Nos primeiros anos após a sua fundação, tendo como presidente o Dr. Albino Borges de Pinho, a Casa atingiu o período mais brilhante da sua existência, organizando grandes eventos, entre os quais as visitas a Ovar da Imprensa Diária (em 27 e 28 de Junho de 1953), do Núncio Apostólico D. Fernando Cento (6 de Junho de 1954), dos conferencistas Dr. António Luís Gomes (20 de Março de 1954), do escritor do jornal “O Século” Adelino Mendes (12 de Maio 1956), o Encontro (Setembro de 1953), e o Comboio da Saudade…

Visita do Cardeal Cento a Ovar (Chegada à Igreja Matriz)

Pela Páscoa, a Direcção comprava à Sr.ª Teresa da Olaria, fabricante de roscas doces, grande quantidade dessa especialidade vareira para ser distribuída pelos vareirinhos mais necessitados da capital, e nas festas natalícias fornecia géneros alimentícios aos ovarenses lisboetas mais carenciados. Anualmente, no Verão, organizava um passeio fluvial pelo rio Tejo, até Vila Franca de Xira, para sócios e seus familiares, juntando dessa maneira muita gente de Ovar, que dançava e cantava as cantigas da sua terra, numa alegre confraternização que durava enquanto o sol não se escondia.

Na Páscoa, distribuindo as roscas da Sr.ª Teresa da Olaria

A sede, na Avenida da Liberdade, foi algumas vezes visitada pela nossa conterrânea Maria Albertina, grande nome do fado e do teatro, que gostava de conversar com as pessoas mais idosas, recordando, com elas, os tempos antigos da sua infância…

Grupo Coral da Casa da da Comarca de Ovar em visita ao Estádio Nacional

Quando o Orfeão de Ovar se deslocou a Lisboa para apresentar, no Parque Mayer, em 16, 17 e 18 de Junho de 1956, a Revista “Aqui Ovar!”, a Casa do Concelho alugou um coche puxado por cavalos, que percorreu as ruas mais importantes da capital com uma tripulação de quatro jovens vestidas à varina, fazendo reclamo ao espectáculo. Ao apreciarem as nossas beldades vareiras, as pessoas de Lisboa dirigiam-lhes piropos, como este: – Se a Revista for tão bonita como as varinas do coche, vale a pena ir vê-la ao Teatro Variedades!...


Em 1955, por iniciativa de Elias Rodrigues Abade, funcionou nas instalações do Centro Vidreiro (antiga fábrica da Varina), ao sul da Praia do Furadouro, uma Colónia Balnear Infantil da Casa do Concelho de Ovar em Lisboa. Mais tarde, em 21 de Junho de 1958, nas comemorações do 6.º aniversário da colectividade, o Dr. João de Araújo Correia proferiu na sede da Casa do Concelho, na Avenida da Liberdade, uma brilhante conferência intitulada “Há Sal na Régua”, que encantou a todos presentes, e cujo texto está totalmente transcrito no “Boletim da Casa do Concelho de Ovar” de Julho de 1958, sendo publicado em separata, merecendo que se faça uma nova edição, para ser mais divulgado na nossa terra!...
A 27 de Janeiro de 1973, a Assembleia Geral da “Casa do Concelho de Ovar em Lisboa”, na sequência duma crise de dirigentes e do desinteresse da maior parte dos sócios, decidiu dissolver aquela Associação, que durou pouco mais de 20 anos.

Foram presidentes da Assembleia Geral da Casa do Concelho de Ovar em Lisboa:
1 - Major Manuel Gomes Duarte Pereira Coentro (1953-1954)
2 - Dr. Luís Valente da Silva (1955-1956), que faleceu Juiz Desembargador.
3 - António Coentro de Pinho (1957-1973)

A Casa acabou, como dizia o Sr. António Coentro de Pinho no “Notícias de Ovar” de 18/02/1988, “por terem falecido ou desistido muitas das suas dedicações, por falta de saúde de uns e cansaço de outros, e o desinteresse acentuou-se e a Casa do Concelho extinguiu-se, quase sem se saber como e porquê!...”
Eu diria que o principal porquê da extinção da Casa foi, precisamente, o falecimento das dedicações vareiras, daqueles que emigraram para Lisboa na primeira metade do século XX, porque actualmente já quase só existem na capital vareiros de 2.ª, 3.ª e 4.ª geração, os quais, embora tenham raízes ovarenses, já não manifestam por Ovar aquele acrisolado amor que os seus progenitores profundamente sentiram…

Fontes de informação: “Monografia de Ovar” e depoimentos de antigos sócios da colectividade.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Dezembro de 2006)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/03/recordando-casa-do-concelho-de-ovar-em.html