17.6.17

Jornal JOÃO SEMANA - 15 JUNHO 2017

Jornal ovarense “JOÃO SEMANA”
15 de junho de 2017

NA CAPA:
- Festividades de Nossa Senhora da Ajuda
- Projeto "Mãos Solidárias"
- Ovar e Póvoa do Varzim no trilho de Fátima
- Foral de Pereira Jusã – Válega

NO INTERIOR:
- Orçamento Participativo 2017/18
- José Fangueiro premiado pela UNESCO
- Desporto - Ovarense é campeã
- ENTREVISTA - Diácono António Poças
- Francisco Marques da Silva

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Ovar e Póvoa de Varzim no trilho de Fátima

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2017)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Uma breve notícia de um jornal diário, dando conta de um documento inédito relacionado com as aparições de Fátima, acordou em mim um mundo de emoções e instigou-me a visitar o Museu Municipal de Póvoa de Varzim.
O que referia, então, essa notícia? Que foram há pouco encontradas, bem no fundo de um velho baú de recordações, as respostas, sucintas, da Vidente de Fátima a um inquérito que lhe foi feito em 1946 pelo escultor José Ferreira Thedim a fim de este se documentar para a criação de uma nova imagem de N.ª Sr.ª de Fátima. Ora, este tema toca-me de perto, por ser da mesma época uma imagem histórica de que Ovar se orgulha, por ser a primeira esculpida com a invocação do Imaculado Coração de Maria. 


A primeira imagem do Imaculado Coração de Maria, na Igreja Matriz de Ovar (1946)
[FOTO: Fernando Pinto]

Foi neste estado de espírito que contactei o descobridor desse documento, Arquiteto Rui Bianchi, neto do mestre Thedim, que me informou que o achado se encontrava na exposição “Caminhar com Maria – O culto mariano no Arciprestado de Vila do Conde/Póvoa de Varzim”, patente no museu local.

Ontem o comboio; hoje o metro
Tomado o comboio em Ovar com destino ao Porto, acompanhado pelo jornalista Fernando Pinto, Diretor-adjunto do “João Semana”, logo fomos aclarando as razões e os contornos da viagem, iniciada na estação do caminho de ferro de Ovar, em que, pouco depois da chegada da linha férrea até Gaia (1863), “um pobre homem da Póvoa”, como se retratou Eça de Queirós, abriu o seu romance “A Capital”, com o protagonista Artur Corvelo a embarcar para Lisboa.
Passámos Espinho, onde, naquele tempo, alguns comboios paravam, exclusivamente para carregar peixe da arte xávega, ali introduzida pelos pescadores de Ovar.
Até Campanhã houve lembranças de Lúcia, um dos videntes de Fátima, que viveu, em jovem, em Gaia e no Porto. Em curta correria, tomámos o metro para a Póvoa, um percurso que até há pouco era feito por comboio, e atravessámos as terras da Maia, onde diversos santeiros produziram para todo o mundo milhares e milhares de imagens da Virgem da Cova da Iria.
O antigo convento e o aqueduto de Vila do Conde, e a figura tutelar de José Régio, o poeta dos "Poemas de Deus e do Diabo", dos Cristos Crucificados e de "uma Nossa Senhora de madeira arrancada a um calvário de capela", deram-nos sinal da proximidade da Póvoa.

Sabores e saberes
Tal como tinha sido combinado, esperava-nos junto à velha estação poveira o arquiteto Rui Bianchi, assessor do município, que nos guiou até ao Museu Municipal, onde nos esperava a diretora, Dr.ª Deolinda Carneiro. Pouco nos faltava para se concretizar o móbil da visita. Ei-lo, o inquérito a Lúcia, bem guardado numa vitrina, no centro da exposição, junto a uma bela Virgem de Fátima (ver foto AQUI). Fazendo eu menção de fotografar o documento, a Diretora, delicadamente, com um não vale a pena, porque tenho uma cópia completa para lhe dar, convidou-nos a uma visita rápida à Exposição e ao Museu, através de salas e corredores pejados de obras de arte, detendo-se no seu gabinete, que transmitia, através de livros e de peças artísticas, o perfume e o encantamento do belo.
A visita transformava-se em festa, partilhada com alguém que, transpirando saber já provado em muitas páginas escritas com sabor à terra, ao mar, às tradições e à fé da gente poveira, nos mostrou e ofereceu fotos de imagens de Maria e catálogos de exposições de Arte Sacra ali realizadas.
A conversa fluía livre e espontânea quando, reparando num belo álbum sobre insetos, o pensamento do Fernando Pinto voou para Ovar, onde, em tempos idos, numa vasta área ribeirinha, houve marinhas de sal e campos de arroz, e que hoje são o habitat natural de plantas e borboletas raras, das mais raras que há no mundo, tal como a borboleta pavão diurno, que ainda em maio se poderia observar na foz do rio Cáster, e cuja fotografia, deste artista ovarense, tem deliciado os cibernautas.
Atento ao diálogo, o arqueólogo José Flores, marido da diretora, e que, como ela e como o jornalista do “João Semana”, se entrega a trabalhos de campo nessa área da natureza, deixou o seu gabinete, trazendo na mão um livro da especialidade, "As Borboletas de Portugal", de Ernestino Maravalhas, repleto de fotografias coloridas, uma das quais reproduzindo, nada mais, nada menos do que um daqueles delicadíssimos lepidópteros.

Cada imagem o seu gesto
A nossa pesquisa voltou-se, de novo para o documento que nos trouxe ali, o Inquérito de 1946, cuja cópia tínhamos já entre mãos, juntamente com alguns recortes de jornais estrangeiros e fotos relacionadas com Fátima. De facto,  logo pudemos  constatar que, sendo o questionário assinado pela Vidente em 09/11/1946, não poderia ter influenciado a escultura de Albano França acolhida na Igreja Matriz de Ovar quatro meses atrás, em 12 de julho desse ano, imagem que Lúcia não chegou sequer a conhecer, e que tão pouco conheceram as entidades de Fátima, que ainda em 1969 a julgavam “desaparecida”.


A 1.ª escultura do Imaculado Coração de Mariaassinada pela Casa França, existente, desde 1946, na Igreja Matriz de Ovar, com as correções pedidas pela Irmã Lúcia em 1943/44.
(O escultor não teve em atenção o “franzido do cinto”)
[FOTO: Fernando Pinto]


Chancela do escultor na base da imagem
do Imaculado Coração de Maria reproduzida acima

[FOTO: Fernando Pinto]


Irmã Lúcia junto à maqueta do Imaculado Coração
de Maria não executada pelo Padre Mc Glynn (1947),
no livro "A Vidente de Fátima Dialoga e responde
pelas Aparições", de Sebastião Martins dos Reis,
mas de acordo com a maqueta de José Ferreira
Thedim para as imagens de 1948/49 
Pelo n.º 43 do Inquérito concluímos, até, que, embora coincidindo com as informações dadas por Lúcia em 1943 e que serviram de base para o esboço corrigido por ela, em tudo correspondendo à imagem de Ovar, a resposta sobre o Imaculado Coração de Maria está direcionada para a confeção de uma nova escultura que Thedim viria a produzir e a oferecer à própria Lúcia em 1948, como recordação da sua entrada no Carmelo, mas que, não tendo agradado totalmente à Religiosa, foi substituída por outra, que lhe foi entregue em Coimbra em 1949 e que erradamente é tida como a primeira imagem daquele título, em desfavor da de Ovar, esculpida três anos antes, em 1946, pela Casa França, do Porto, em circunstâncias ainda não de todo aclaradas, e que é para Ovar motivo de santo orgulho.
A jornalista brasileira Regina Helena de Paiva Ramos, afirma no jornal "A Gazeta" de São Paulo, de 5 de março de 1958, que numa entrevista que fez a José Ferreira Thedim, este lhe contou que conversando com Lúcia, no Colégio do Sardão, em Gaia, em 1946, pouco depois do seu regresso de Espanha, iniciou um trabalho artístico. "Fiz primeiro a maqueta e depois o modelo mais perfeito em gesso. Mostrei-o à Irmã Lúcia (na foto) para que o aprovasse ou não. Depois executei a imagem e levei-a à Vidente. Ela abraçou-se à Nossa Senhora, dizendo: "É a que mais se parece com a minha mãe do Céu".


Extrato da pergunta n.º 43 do Inquérito feito pelo escultor
José Ferreira Thedim à Irmã Lúcia que o assinou em 09/11/1946

Poderá esta imagem corresponder a uma maqueta ao lado da qual foram fotografadas, em 1947, quer a religiosa, quer uma jovem noviça, ou poderá referir-se mesmo à versão definitiva de uma das imagens do Carmelo.
Apesar de não de todo esclarecedora, ficou bem marcada esta visita do “João Semana” à Póvoa do Varzim, cidade irmã de Ovar porque o mesmo mar as acaricia e alimenta, e similares tradições lhes fortalecem as almas gémeas.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de março de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/06/ovar-e-povoa-do-varzim-no-trilho-de.html


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Ovar no culto de Fátima – Uma imagem histórica na Igreja Matriz


31.5.17

Alberto Ramires – Do “Poço da Morte” à Fapral

Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2016)
TEXTO: Orlando Caió

Alberto Ramires
Alberto Ramires é um nome incontornável na área dos parques de entretenimento e diversão em Portugal. Filho de mãe espanhola – de seu nome Agostinha Ramirez – e de pai português, viera ao mundo no dia 2 de Maio de 1921 na freguesia de Santa Maria, concelho da Covilhã, distrito de Castelo Branco.

Construtor do próprio “poço da morte”
Em meados da década de 1940 construíra o seu próprio “Poço da Morte” com 6 metros de diâmetro por 7 metros de altura, onde, na qualidade de principal atração, ar­riscava a vida montado numa moto da marca inglesa Williers. A afina­ção da moto era feita pelo conhe­cido mecânico Alexandre Seixas. Na véspera das atuações, Alberto Ramires levava a moto à garagem do referido mecânico, ao tempo si­tuada na Travessa Júlio Dinis.
Alberto Ramires foi o primeiro artista português a atuar no Poço da Morte que, nas décadas de 1940 e 1950, era uma das principais atrações que percorriam as mais importantes feiras do País, assim como festas e romarias.
Pouco tempo depois de sozi­nho ter alcançado notável sucesso, convencera a sua irmã mais nova, Zulmira Ramires, a formar com ele uma dupla. E passaram a atuar em simultâneo, montados cada um na sua própria moto, rodopiando pe­las paredes de madeira do “Poço da Morte” sem qualquer rede de proteção, a uma velocidade próxi­ma dos 90 quilómetros/hora.
A ideia da dupla era algo de novo que agradava ao público, e os “Irmãos Ramires” passaram a ganhar a vida desafiando a morte.
Alberto Ramires chegou a atuar no Poço da Morte em diversos locais de Ovar, por exemplo no Furadouro, por altura das Festas do Mar, e em Arada durante os dias de Festa de Nossa Senhora do Dester­ro, depois de atuações na Feira de Março em Aveiro, festas de Lame­go, Covilhã, Espinho, Palácio de Cristal no Porto e ilhas da Madeira e dos Açores.
Alberto Ramires, que crescera em Viseu e viveu algum tempo em Aveiro, fixou-se em Ovar na década de 1950, depois de ter residido no lugar de Souto, Santa Maria da Feira.
Em finais da referida década deixara de ser artista do Poço da Morte, para se dedicar exclusiva­mente a outros géneros de diversão como por exemplo os carrosséis de girafas e aviões e as pistas de automóveis elétricos.
Moto antiga Williers
Na decisão de deixar o “Poço da Morte” talvez tenha pesado o facto de numa das atuações ter esmagado as pontas de alguns dedos da mão direita.
Conheci-o em finais da década de 1950 ou inícios da década de 1960, quando na cabine de coman­do da pista de automóveis insta­lada no local onde atualmente se encontra o Palácio da Justiça e no Largo dos Combatentes – bem per­to da sua residência –, de microfo­ne na mão e com estilo, anunciava: – “Vamos para nova corrida e nova viagem, que esta terminou!”.
Depois da incursão pelos car­rosséis e pistas de automóveis, Al­berto Ramires viria ainda a fundar em 1965 uma empresa de plásticos industriais, à qual foi dada o nome “Fapral”, que funcionou até Março de 2013 em São João de Ovar, jun­to à estrada nacional 109.
Alberto Ramires foi de certo modo um aventureiro, mas tam­bém um homem de coragem, inteligência e visão, que a 16 de Julho de 2011 chegaria ao fim da corrida da vida, já com a bonita idade de 90 anos.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de março de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/06/alberto-ramires-do-poco-da-morte-fapral.html

17.3.17

Homenagem de Ovar ao Dr. Ramiro Salgado

Dr. Ramiro Salgado
(1932-2014))
Jornal JOÃO SEMANA (01/08/2016)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Entre as pessoas e as instituições contempladas pela Câmara Munici­pal de Ovar com medalhas de ouro, prata e cobre, conta-se, a título póstumo, o Dr. Ramiro Benjamim Cordeiro Fernandes Salgado, já detentor, desde há anos, da medalha de cobre, que há alguns anos, lhe foi atribuída pelos bons serviços prestados à comunidade vareira quando aqui exerceu as funções de médico cardiologista, e a quem agora foi entregue a Medalha de Mérito Municipal Ouro, pelo facto de ter composto uma canção – “Ovar” – excecionalmente feliz quer na parte melódica, quer no texto poético, que expressa os valores morais, patrimoniais e paisagísticos da nossa cidade, constituindo um verdadeiro ex-líbris de Ovar, que a Tuna “Os Voluntários de S. João da Madeira” mantém, desde há 30 anos, no seu repor­tório, como a pedra mais preciosa do tesouro que lhe legou o seu fundador.


OVAR
Letra e música de Ramiro Salgado

Capa do 1.º de diversos discos gravados pela Tuna
dos Voluntários de S. João da Madeira
Ovar! Perto de ti o nosso mar.
Ovar! Tens a riqueza desse mar.
Ovar! A ria é, quando a brilhar
Nas noites mornas de luar,
De uma beleza sem igual!

Ovar hoje é cidade, sem favor.
Ovar, de tanta história e fervor.
Ovar tem Carnaval,
Tanta alegria e cor!

Ovar! Vou à praia ficar
Junto à duna a sonhar.

Ovar! Tens a varina e o pescador.
Ovar! Do Pão de Ló tens o sabor.
Ovar! Tantos comboios a chegar,
Trazendo vidas a lutar
Numa aposta de amor.

Ovar! Vou à praia ficar
Junto à duna a sonhar.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de agosto de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/03/homenagem-de-ovar-ao-dr-ramiro-salgado.html



Manuel Colares Pinto
Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2017)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Recordando o “Hino de Ovar”

Em 1952, nas Festas Centená­rias, foi cantada pelo Orfeão de Ovar uma composição musical da autoria do Padre Agostinho de Oliveira Félix, então Pároco de Ovar, construída sobre uma letra de Manuel Colares Pinto, composição essa (na gravura ao lado) que, não tendo a divulga­ção necessária, não alcançou o sucesso que se esperaria, estando praticamente esquecida.


Padre Félix
No fim da década de 80, o Dr. Ramiro Salgado, natural de Torre de Moncorvo e residente em S. João da Madeira, médico cardiologista que durante muitos anos exerceu clínica em Ovar, terra a que ficou indelevelmente ligado por laços afetivos, criou uma canção de nome “Ovar” que a tuna “Os Voluntários de S. João da Madeira” gravou no primeiro dos seus discos, e que passou a ser considerada como que o ex-líbris daquele agrupamento.
Esta canção que muitos consideram como o “Hino de Ovar” tem sido muito utilizada na abertura e no fecho da emissão da Rádio Antena Vareira e antes e no fim dos jogos de futebol da Ovarense.
O autor destas linhas, que colaborou com o inspirado médico na transcrição musical de várias das suas criações, honra-se de ter contribuído para fixar o ritmo desta composição, e, após a sua morte, com o consentimento de sua esposa e de seus filhos, ousou ajustar pequenos detalhes do texto: duna em vez de barra; chegar em vez de passar, e “Ovar tens a varina e o pescador /Ovar do Pão de Ló tens o sabor” (em vez da repetição das duas primeiras linhas do poema), e ainda repe­tindo, no final da canção, as linhas 9 e 10: “Ovar! Vou à praia ficar junto à duna a sonhar”, com o acrescento do nome “Ovar”.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de março de 2017)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/03/homenagem-de-ovar-ao-dr-ramiro-salgado.html



Texto que acompanhou, em 25/07/2016 a canção "Ovar", interpretada por Américo Oliveira e Ana Andrade, com acompanhamento das duas Bandas Filarmónicas de Ovar – Ovarense e Boa União – em homenagem ao Dr. Ramiro Salgado, seu autor, em cerimónia que continuou nos Paços do Concelho com a entrega da Medalha de Mérito Municipal Ouro, a título póstumo.


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22.2.17

A mais antiga história de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/2017)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

A Trupe de Reis JOC/LOC de Ovar apresentou este ano, como primeiro número do seu programa (saudação), um texto baseado num documento histórico de Ovar datado de 28 de abril de 1026, e que vem publicado (em latim e em português) nas páginas 36, 37 e 38 da obra “Ovar na Idade Média” (C.M. Ovar, 1967) do historiador vareiro padre Miguel de Oliveira.


CLIQUE na gravura para aumentar

Do texto original reproduzimos parte da tradução portuguesa:
“Cristo. Em nome de Deus, eu Meitili, faço-te a ti, Octício carta de venda de toda a quarta parte das nossas propriedades, que possuí­mos por herança de pais e avós, na vila de Cabanões e em Muradões, sob o monte Castro de Recarei, no território da cividade de Santa Maria, junto do curso do rio Ovar (…) porque nos resgataste do cati­veiro a mim Meitili e a minha filha Guncina e nos tirastes das barcas dos Normandos, dando por nós um manto de pele de lobo, uma espada, uma camisa, três lenços, uma vaca e três moios de sal, tudo no valor de 70 módios, em presença dos próprios senhores que moravam na casa de Santa Maria da Civi­dade, Tedom, Galindes, Fernando Gonçalves e Erro Teles, e do preço nada deixaste de pagar. (…) E eu Meitili reboro por minha mão esta carta de venda, perante as testemu­nhas presentes: Ederónio, Cáceme, Erigo, David, Songemiro. Notário, o abade Vasco”.
(O Castro de Recarei situa­-se em S. Martinho da Gândara. Cássemes é o nome de um lugar de S. Vicente de Pereira. A Casa de Santa Maria da Cividade é o Castelo da Feira.)

A mais antiga história de Ovar

Voz: Este ano, em noite de Reis,
Diferente é o nosso saudar,
Trazendo à memória
A mais velha história
Da antiga terra de Ovar.

Coro: Há mil anos, em mil e vinte e seis,
Cumprindo dura sina,
Vão p’ra o mar,
De canastra e rapichéis,
Meitili e Guncina.
Noite de abril. Cobre o mar
Um céu de anil,
E num esteiro há um veleiro
Com piratas a espiar.

Trupe de Reis JOC/LOC 2017
(Foto: Fernando Pinto)
Voz: É um bando normando
Que assalta e rapina,

Coro: Que prende Meitili e Guncina.

Coro: O sol já brilha,
No veleiro há um debate
– Maravilha! – mãe e filha
Vão obter o seu resgate.

Voz: E um jovem pirata
Vendo tão bela donzela,

Coro: Suspira ficar cativo dela.

Voz: Este ano, na noite de Reis,
Diferente é o nosso saudar,
Trazendo à memória
Amais velha história
Da antiga terra de Ovar.

Coro: Há mil anos, em tarde de abril,
Finda tão dura sina,
Deixam o barco e o bando normando
Meitili e Guncina.
A um certo Octício,
Deram terras, p’ra as livrar,
Em Cabanões e Muradões,
Junto do rio Ovar.

Voz: E o bando normando
Alto preço determina

Coro: P’ra soltar Meitili e Guncina:
Uma espada,
Um manto de pele lupina,
Uma camisa, um animal
E muitos módios de sal.

Voz: Quando no esteiro há nevoeiro,
A voz do mar
Fala de um pirata a suspirar…

Letra de Manuel Pires Bastos

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de fevereiro de 2017)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/02/a-mais-antiga-historia-de-ovar.html



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O Carnaval da minha juventude

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/2017)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Depois de terminarem os festejos do Ano Novo e do cantar das trupes de Reis, Ovar prepara-se para viver o Carnaval, que é hoje um enorme cartaz de propaganda da nossa cidade, atraindo a ela muitos forasteiros e foliões. Mas nem sempre foi assim.

As cegadas
Contaram-me algumas pessoas que viveram a sua juventude nas primeiras décadas do passado século XX, que até aos anos 30 havia em Ovar, pelo Carnaval, as cegadas, uma espécie de represen­tação teatral de rua, com versos musicados a criticarem certos acontecimentos que decorreram durante o ano na nossa terra. Entre os vários factos criticados há um que não resisto a descrever, por ser atual: Trata-se da execução da estrada de Ovar a Pardilhó.
Quando os nossos antepassados necessitavam de se dirigir a esta e outras localidades vizinhas, bem como à Senhora de Entráguas, caminhavam através dos pinhais que se estendiam a partir do antigo Matadouro do Casal. Os políticos de então, sempre que havia elei­ções, prometiam ao povo que, se ganhassem, mandariam construir a estrada. Mas nunca cumpriam o prometido.
Na última metade do século passado, aquela via foi finalmente construída. Mas enquanto isso não aconteceu, nas antigas cegadas de Carnaval cantava-se ironicamente:

“A estrada de Pardilhó
Vai ser feita p’ra janeiro
Os carros vão-se arranjar
No Guilherme Serralheiro”.

A serralharia do Guilherme era na Rua Alexandre Herculano, junto ao Passo do Encontro.

Os entrudos
Embora já tivesse escrito um texto no “João Semana” de 15 de fevereiro de 2002 fazendo alusão aos precursores do Carnaval de Ovar, recordo agora como era o Carnaval da minha infância, com­posto essencialmente pelos entru­dos (hoje chamados mascarados), que desfilavam pelas ruas da vila, dando-lhes bastante alegria desde o domingo gordo até à terça-feira de Carnaval, também conhecida pelo dia do Entrudo.

Santa Camarão (vestido de guerreiro), Fernando Alçada e o seu cunhado João Costa
no desfile do domingo go
rdo de 1956, saído de S. Miguel
Fantasiavam-se usualmente enfiando uma meia na cabeça ou tapando a cara com um pano ou uma máscara, e algumas ve­zes caricaturando certas figuras públicas. Vestiam-se com roupa velha de homem ou de mulher, conforme o gosto de cada um, e alguns seguravam nas mãos placas com inscrições de piadas, muitas vezes em verso, criticando certos acontecimentos na nossa terra…
No conjunto das brincadei­ras mais hilariantes dessa época carnavalesca destacava-se a do “rabo-levar”, que consistia em colocar um rabo de pano ou de papel seguro por um alfinete nas costas do Entrudo, sem o seu co­nhecimento, provocando imenso riso a quem assistia. Por vezes, os mais jovens cantarolavam, ao lado dos mascarados: “Ó Entrudo cabeludo, sete saias de veludo”.
No passeio do lado norte da Câmara, na Praça da República, junto das antigas lojas do Teixeira e do Camarão, aglomerava-se muita gente para os ver passar, e algumas pessoas atiravam para a estrada rebuçados, que os rapazes tentavam apanhar, provocando grande confusão no trânsito.
João Salvador (João da Vareiri­nha), pai do António Salvador (Rei do Carnaval entre 1979 e 1983), era um desses habituais atiradores de rebuçados.

O corso de domingo
Entretanto, os anos foram correndo, e noutras localidades portuguesas já desfilavam cortejos carnavalescos, que estimularam al­guns conterrâneos nossos a porem também nas ruas da nossa terra um corso similar.

Carro do Bairro da Arruela (1952)

No extinto jornal “Notícias de Ovar” costumavam encontrar-se três amigos, só um dos quais, o saudoso bairrista José Maria da Graça, era de Ovar. Os outros dois, Aníbal Emanuel da Costa Rebelo e José Alves Torres Pereira, eram naturais do Porto e da Póvoa do Varzim, respetivamente.
Nas suas longas conversas, estes amigos abordavam o tema do Carnaval, admirando o entusiasmo do povo vareiro que, em grande número, se fantasiava, em grupos isolados, nos dias de Entrudo. Porque não saírem em cortejo? Com o apoio de António Coentro de Pinho, presidente da Câmara, e, posteriormente, de outros ilustres ovarenses, os três começaram a organizar o primeiro corte­jo de Carnaval, formado em S. Miguel, de onde saiu em 1952.
Nos pri­meiros anos o cortejo desfila­va apenas no domingo gor­do, com car­ros alegóricos enfeitados a cargo de comissões de pessoas dos respetivos bairros ou de empresas locais.

O Carnaval sujo
Na terça-feira de Carnaval, por volta das 17h00, com anún­cios de morteiro, dava-se início ao chamado Carnaval sujo, onde muitos dos participantes atiravam casca de arroz, serradura, farinha e outros produtos. Era no Largo Serpa Pinto, em redor do chafariz do Neptuno, que essas brincadei­ras atingiam o auge, provocando as gargalhadas de quantos a isso assistiam.
Durou poucos anos esse tipo de divertimento, passando a repetir-se na terça-feira o cortejo de domin­go, conforme acontece nos nossos dias.
O Carnaval de Ovar da minha juventude era diferente daquele a que assistimos hoje. Sem am­bições comerciais ou turísticas, não possuía escolas de samba, nem outras imi­tações bra­sileiras, que hoje atraem à nossa terra milhares de forasteiros e foliões. No entanto, em­bora fosse um Carnaval caseiro, ge­nuíno e espontâneo, também era muito alegre e divertido.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de fevereiro de 2017)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/02/o-carnaval-da-minha-juventude.html

8.2.17

Grupo Folclórico “As Morenitas” do Torrão de Lameiro

Jornal JOÃO SEMANA (15/08/2016)
TEXTO: João M. Gomes Costa

Em todas as épocas da História o Homem teve necessidade de preservar as suas raízes e tradições, necessidade essa que se torna particularmente ligada a todo o cidadão atento e com gosto pela cultura.
Sendo Portugal um país bastante rico em costumes etno-musicais, apesar da sua reduzida dimensão geográfica e populacional, teremos alguma dificuldade em compreender como conseguiu, musicalmen­te, uma linguagem original, abundante e variada, para além de toda uma imensa variedade e riqueza instrumental.
Ao longo dos tempos, cada indivíduo transmite aquilo que considera de maior interesse e valor para as gerações mais jovens. Esta transmissão, no plano individual ou no coletivo e abrangendo as mais diferentes áreas de expressão musical, surge por via oral ou pela escrita, ou por ambas, entregando ao tempo presente uma longa herança cultural.
Gallop (1988) afirma que o “ folclore Português assume a sua forma definitiva no séc. XVIII. Os alicerces em que assenta a Canção Popular Portuguesa são puramente genuínos, isto é, nasceram nas suas próprias terras natais”, e encara o nosso folclore, sob o ponto de vista recreativo, como uma imagem caracteristicamente infantil e inconsequente.
Para Lopes Graça (1988), “o Folclore mostra a verdadeira face da nossa Música Popular, um Folclore singularmente rico não só morfologicamente como, na sua essência etnográfica e sociológica, um Folclore musical em que avulta, sobretudo, a extrema diversidade temática, a enorme riqueza modal, grande potencialidade rítmica e surpreendente fertilidade polifónica”.

As Morenitas do Torrão do Lameiro
O Torrão do Lameiro insere­-se numa das zonas turísticas mais bonitas de Portugal, desfrutando, simultaneamente, da proximidade da ria, do pinhal e do mar. Situado na zona ribeirinha da ria de Aveiro, tem sido e continua a ser um autên­tico alfobre do folclore, atendendo aos jovens que desde tenra idade o integram.
O Rancho Folclórico “As Mo­renitas”, do Torrão de Lameiro, fundado em 1960, e que em 1981, seguindo indicações da Federação Portuguesa de Folclore, passou a designar-se Grupo Folclórico “As Morenitas”, pode hoje considerar­-se um representante ímpar no Folclore Português, traduzindo caraterísticas únicas, resultantes da singularidade do seu povo e da realidade piscatória.
Tendo como objetivo preservar o património Etnográfico da região, o Grupo assume-se como o fiel depositário dos usos e costumes do seu povo, preservando as suas músicas e danças, bem como as suas memórias, dando-as a conhe­cer em eventos em que costuma participar, como congressos, feiras à moda antiga e festivais nacionais e internacionais.

Grupo Folclórico “As Morenitas” do Torrão de Lameiro

O grupo folclórico Morenitas do Torrão do Lameiro realiza o seu Festival Nacional em cada ano, no mês de julho, na celebração do seu aniversário. Esta comemoração é conhecida, entre nós, como a festa da sardinha, porque ligada à nossa realidade geográfica e cultural (o mar, o pescador e as varinas), e é organizada, desde há vários anos, em conjunto com o Grupo Folcló­rico as “Varinas de Ovar”. Este ano o programa foi preenchido com atividades várias, nomeadamente, a atuação dos Grupos Folclóricos da Região do Vouga e Grupo de Danças e Cantares do Centro Social de Soutelo (Rio Tinto, Gondomar), terminando com a partilha de sar­dinha assada, grelhados e outros petiscos para todos os veraneantes na praia, com a presença do presi­dente da União de Freguesias de Ovar, São João, Arada e S. Vicente, e do representante da Federação do Folclore Português.
O Grupo Folclórico “As Mo­renitas de Ovar” também realiza, no 1.º fim de semana de agosto, o Festival Pró-Emigrante – já vai no 30.º –, uma sentida homenagem aos nossos emigrantes em férias, importantes veículos culturais das nossas terras.
Este grupo folclórico é sócio fundador da Federação Portuguesa de Folclore (1960), e filiado no INATEL, tendo já editado dois discos em vinil, uma cassete áudio e outras gravações.
Tem participado com brio e autenticidade em festas, romarias e festivais de norte a sul do país, salientando-se a participação, re­presentando o Distrito de Aveiro, em dois grandes festivais, um em Lisboa e outro no Algarve, este transmitido diretamente pela RTP. Fora de portas, salientamos a sua atuação em Festivais Internacionais na Alemanha e em Espanha.

Dados etnográficos
Fiel às suas origens, o Grupo Folclórico “As Morenitas”, cons­tituído por uma “família” de 38 a 40 elementos, comprometidos na preservação e melhoria do grupo, continua, através dos seus res­ponsáveis, a pesquisar espécimes Etnográfico/Folclóricos que re­montam de meados do séc. XIX ao início do séc. XX, apresenta trajes típicos que, de um modo genérico, se reportam à caraterização de figuras típicas da região de Ovar, representando a classe piscatória da Beira Litoral do fim do séc. XIX e início do séc. XX: Mulher de Ovar (1875 a 1895); Vendedor de Peixe (de manaias e casaco, 1845 a 1860); Varina (envergando colete vermelho cintado); Varina (de saia rodada e de cores claras, com um cordão de pontas na cinta); Par de romeiros (1870); Varina (de saia rodada de cores claras e cordão de pontas na cinta, 1860 a 1875); Casal de noivos (1870, envergando ela um chapeirão); Lavadeira (1870); Leiteira (1900); Lavradores com traje de trabalho (1990); Lavradores com traje de festa (1900); Homem das pinhas (mestre das redes de peixe, que nas horas vagas da pesca se dedicava à apanha de pinhas para vender nas padarias e às varinas e pescadores, 1900).


No séc. XX surgem as Varinas de saia até ao tornozelo, de avental comprido e de xaile chinês traçado à volta do tronco. Os pescadores usavam umas ceroulas aos quartos e camisa de xadrez, com faixa e barrete preto.
Quanto aos ins­trumentos musicais, o Grupo utiliza to­dos aqueles que, de um modo geral, são representativos do folclore e da música tradicional portugue­sa, sendo de desta­car o Cavaquinho, os Ferrinhos, o Bombo, as Concertinas e o Violão.
Do vasto repertó­rio de danças e can­tares deste Grupo, de que se realçam os Viras, destacamos: “Ó mar alto, ó mar alto”, “Olha a triste viuvinha”, “Rusga”, “Marujinho”, “Sou uma vareira”, “Quando as pombas se beijam”, “Varina de Ovar”, “Numa bandeja de prata”, “Vira vareiro”, “Vira pescador”, “Real das canas”, “Vira antigo”, “Vira flor”, “Vira real caninha”, “Vira de trempes”, “Vira do Minho” ou “Ensarilha­do”, “Caninha Verde”, “Tirana”, “Catrapuzana”, “Ó Ilda”, “Fui-me confessar”, “Escrevi teu lindo nome” e “Perdiz”.
Uma particularidade: nas suas exibições públicas há a referir que os Morenitas dançam sempre descalços, quer na areia, quer no tabelado, ou na eira.

Gratidão
As Morenitas têm sobrevivido ao longo destas décadas graças à colaboração do Museu de Ovar e às ajudas da Câmara Municipal e da União de Freguesias, e ainda ao apoio técnico da Federação Portu­guesa de Folclore.

Bibliografia:
“Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX”, Gallop, Rodney, 1980
“Canção Nacional”, Graça, Lopes, 1988
Hélder Manuel Rodrigues Gon­çalves e Paulo Nunes Gonçalves (fontes locais de informação)

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de agosto de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/02/grupo-folclorico-as-morenitas-do-torrao.html

4.2.17

A Rainha da Cadeia

Jornal JOÃO SEMANA (15/05/2016)
TEXTO: Orlando Caió

Para uns era “Rainha da Cadeia”, para outros Aurorinha “Pinta-Ratos”. Este seria o apelido atribuído ao companheiro da mãe, mas o seu verdadeiro nome era apenas e só, Aurora de Jesus, natural da freguesia de Aldoar, concelho do Porto, onde nasceu às 4 horas da tarde do dia 17 de Novembro de 1894.
Foi batizada no dia 29 de Junho de 1895 com 7 meses de idade, na igreja Matriz de Ovar. Era filha ilegítima de António de Oliveira Costa, estucador, solteiro, natural da freguesia de Pedroso-Gaia e de Leopoldina de Jesus, doméstica, viúva, natural da freguesia de Granjinha de São Pedro das Águias, concelho de Tabuaço, distrito de Viseu.

Sobre a “Rainha da Cadeia” sabe-se que quando foi batizada em 1895, a mãe, Leopoldina de Jesus, vivia em Ovar na então rua do Outeiro, atual rua Dr. José Falcão, numa casa que ainda existe de rés­-do-chão e primeiro andar, situada a poucos metros da antiga churrascaria “Zé dos Canecos”. Sabe-se também que em meados da década de 1920, ainda moravam na mesma casa.
Posteriormente, mãe e filha foram morar para o lugar das Tomadias de Baixo na freguesia de Válega-Ovar, numa casa que ainda existe e tem o número 102.
Há bem poucos anos, a casa era habitada por uma senhora de idade bastante conhecida em Válega, de seu nome Maria “Caldeirada”, antiga guarda de linha da CP nas passagens de nível de Válega e de São Miguel.
Na referida casa, que ao tempo  década de 1930  era um palheiro de tábuas, viveu a Aurora com a mãe, Leopoldina, que viria a falecer no dia 22 de Janeiro de 1938, aos 84 anos de idade. Quando a mãe faleceu, a Aurora ficara só, porque o com­panheiro da mãe, que era ferroviário, já tinha falecido há alguns anos.
A Leopoldina, mãe da Aurora, por morte do companheiro recebia um pequeno subsídio mensal.
Após a morte da mãe o subsídio fora suspenso, e a Aurora entrou em depressão. Em atitude de revolta chegou a per­noitar nas escadarias dos Paços do Concelho, onde por diversas vezes na década de 1930, nas mesmas esca­darias e varanda do edifício, em anos diferentes dera vivas à República.

De Válega para a cadeia de Ovar
Para sobreviver, a Aurora dedica­-se a executar por encomenda peças de renda ou croché, como por exem­plo colchas de cama, toucas, nape­rons, cachecóis e toalhas de mesa. Anos mais tarde, na cadeia, chegou mesmo a receber raparigas de cá de Ovar como por exemplo a Rosinha Seixas, que lá iam de propósito, para a Aurora lhes ensinar a fazer renda e a bordar à mão.
A Aurora vivia com dificuldades e a depressão não ajudava. Em Vá­lega era vista a caminhar sem rumo, não só pelos pinhais, mas também a caminhar perigosamente pelo meio da via-férrea, que ficava a escassos metros do palheiro onde vivia.
Mais do que uma vez, foi a po­lícia chamada a intervir, porque ela perturbava o tráfego ferroviário. E, certo dia, a Aurora recebe ordem de prisão e dá entrada na cadeia de Ovar. Estes episódios ocorrem em 1938, ano da morte da mãe, ou durante o ano seguinte.
Cumprido o tempo de prisão, como a Aurora não tinha família e precisava de apoio, o carcereiro Fran­cisco Rocha, responsável pela cadeia entre 1934 e 1952 interfere no caso. A Aurora passa então a viver na cadeia, e nela permanece até ao fim da vida.

A antiga cadeia de Ovar
Na cadeia dispunha de um quarto e um divã só para ela, assim como liberdade total para sair à rua quando bem entendesse. Em boa verdade, a Aurora, que também ajudava nas limpezas da cadeia, era uma espécie de moça de recados dos presos, que lhe pediam para ir buscar tabaco, uma sandes ou bebida, compras que habitualmente fazia nas lojas de mercearia do Serafim da Barateira ou do Zé Rico nos Campos, levando no bolso um papel mata-borrão, com o apontamento das coisas a comprar.

“Com gente fina é outra coisa”
Nas décadas de 1950 e 1960, na segunda-feira de Páscoa, era frequen­te realizar-se em Ovar uma procissão com a presença das autoridades civis e religiosas. A procissão terminava com uma visita aos enfermos aca­mados no hospital, e aos detidos na cadeia de Ovar que, ao tempo, funcionava no Alto Saboga.
Acresce que, a cadeia que fun­cionou ao longo de sensivelmente 60 anos, foi desativada em Outubro de 1973 e seria demolida em Julho de 1975.
Nesse dia especial, em que a procissão integrava figuras de certa importância, o almoço então servido na cadeia, era substancialmente me­lhorado. E, a Aurora, com alguma graça e ironia, comentava: – “Assim, sim, com gente fina é outra coisa!”.
A Aurora, que bem conheci, era uma das fi­guras típicas mais emble­máticas de Ovar. Quando ela imponente, com o seu ar majestoso passava na rua, ninguém lhe ficava indiferente. Era uma mu­lher bonita, de fala meiga e olhar doce um tanto misterioso. Alta, cabelo louro natural, rosto branco e faces le­vemente rosadas, olhos azuis-claros, brincos compridos e porte altivo, mais parecia uma rainha!
Na década de 1950, andava eu na escola primária da Praça, e muitas vezes me cruzei com ela no Jardim dos Campos.
A “Rainha” gostava de vestir roupas de cores garridas como o ver­melho. Serena e imperturbável, lá ia ela fazer compras.
Às vezes saía à rua de chapéu ou touca de lã encarnada, outras vezes com uma flor presa no cabelo e uma fita vermelha ou amarela apanhada entre a nuca e a testa e, em determina­das ocasiões, saía para a rua com uma coroa de flores silvestres na cabeça. E daí, a origem de lhe chamarem “Rainha da Cadeia”.
Aurora de Jesus, solteira e sem profissão definida, estivera alguns meses recolhida no Asilo da Miseri­córdia de Ovar, onde viria a falecer a 1 de Setembro de 1973 aos 78 anos, vítima de acidente vascular cerebral.
Depois de aturada pesquisa em di­versos arquivos e contactos com cerca de uma dúzia de pessoas, aqui fica em traços gerais a história da circunspecta “Rainha da Cadeia”, uma das figuras populares mais interessantes de Ovar no século XX.

Antiga Cadeia, no Alto Saboga, com a procissão da visita aos enfermos e aos presos 

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de maio de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/02/a-rainha-da-cadeia.html