31.5.17

Alberto Ramires – Do “Poço da Morte” à Fapral

Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2016)
TEXTO: Orlando Caió

Alberto Ramires
Alberto Ramires é um nome incontornável na área dos parques de entretenimento e diversão em Portugal. Filho de mãe espanhola – de seu nome Agostinha Ramirez – e de pai português, viera ao mundo no dia 2 de Maio de 1921 na freguesia de Santa Maria, concelho da Covilhã, distrito de Castelo Branco.

Construtor do próprio “poço da morte”
Em meados da década de 1940 construíra o seu próprio “Poço da Morte” com 6 metros de diâmetro por 7 metros de altura, onde, na qualidade de principal atração, ar­riscava a vida montado numa moto da marca inglesa Williers. A afina­ção da moto era feita pelo conhe­cido mecânico Alexandre Seixas. Na véspera das atuações, Alberto Ramires levava a moto à garagem do referido mecânico, ao tempo si­tuada na Travessa Júlio Dinis.
Alberto Ramires foi o primeiro artista português a atuar no Poço da Morte que, nas décadas de 1940 e 1950, era uma das principais atrações que percorriam as mais importantes feiras do País, assim como festas e romarias.
Pouco tempo depois de sozi­nho ter alcançado notável sucesso, convencera a sua irmã mais nova, Zulmira Ramires, a formar com ele uma dupla. E passaram a atuar em simultâneo, montados cada um na sua própria moto, rodopiando pe­las paredes de madeira do “Poço da Morte” sem qualquer rede de proteção, a uma velocidade próxi­ma dos 90 quilómetros/hora.
A ideia da dupla era algo de novo que agradava ao público, e os “Irmãos Ramires” passaram a ganhar a vida desafiando a morte.
Alberto Ramires chegou a atuar no Poço da Morte em diversos locais de Ovar, por exemplo no Furadouro, por altura das Festas do Mar, e em Arada durante os dias de Festa de Nossa Senhora do Dester­ro, depois de atuações na Feira de Março em Aveiro, festas de Lame­go, Covilhã, Espinho, Palácio de Cristal no Porto e ilhas da Madeira e dos Açores.
Alberto Ramires, que crescera em Viseu e viveu algum tempo em Aveiro, fixou-se em Ovar na década de 1950, depois de ter residido no lugar de Souto, Santa Maria da Feira.
Em finais da referida década deixara de ser artista do Poço da Morte, para se dedicar exclusiva­mente a outros géneros de diversão como por exemplo os carrosséis de girafas e aviões e as pistas de automóveis elétricos.
Moto antiga Williers
Na decisão de deixar o “Poço da Morte” talvez tenha pesado o facto de numa das atuações ter esmagado as pontas de alguns dedos da mão direita.
Conheci-o em finais da década de 1950 ou inícios da década de 1960, quando na cabine de coman­do da pista de automóveis insta­lada no local onde atualmente se encontra o Palácio da Justiça e no Largo dos Combatentes – bem per­to da sua residência –, de microfo­ne na mão e com estilo, anunciava: – “Vamos para nova corrida e nova viagem, que esta terminou!”.
Depois da incursão pelos car­rosséis e pistas de automóveis, Al­berto Ramires viria ainda a fundar em 1965 uma empresa de plásticos industriais, à qual foi dada o nome “Fapral”, que funcionou até Março de 2013 em São João de Ovar, jun­to à estrada nacional 109.
Alberto Ramires foi de certo modo um aventureiro, mas tam­bém um homem de coragem, inteligência e visão, que a 16 de Julho de 2011 chegaria ao fim da corrida da vida, já com a bonita idade de 90 anos.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de março de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/06/alberto-ramires-do-poco-da-morte-fapral.html

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