17.6.17

Ovar e Póvoa de Varzim no trilho de Fátima

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2017)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Uma breve notícia de um jornal diário, dando conta de um documento inédito relacionado com as aparições de Fátima, acordou em mim um mundo de emoções e instigou-me a visitar o Museu Municipal de Póvoa de Varzim.
O que referia, então, essa notícia? Que foram há pouco encontradas, bem no fundo de um velho baú de recordações, as respostas, sucintas, da Vidente de Fátima a um inquérito que lhe foi feito em 1946 pelo escultor José Ferreira Thedim a fim de este se documentar para a criação de uma nova imagem de N.ª Sr.ª de Fátima. Ora, este tema toca-me de perto, por ser da mesma época uma imagem histórica de que Ovar se orgulha, por ser a primeira esculpida com a invocação do Imaculado Coração de Maria. 


A primeira imagem do Imaculado Coração de Maria, na Igreja Matriz de Ovar (1946)
[FOTO: Fernando Pinto]

Foi neste estado de espírito que contactei o descobridor desse documento, Arquiteto Rui Bianchi, neto do mestre Thedim, que me informou que o achado se encontrava na exposição “Caminhar com Maria – O culto mariano no Arciprestado de Vila do Conde/Póvoa de Varzim”, patente no museu local.

Ontem o comboio; hoje o metro
Tomado o comboio em Ovar com destino ao Porto, acompanhado pelo jornalista Fernando Pinto, Diretor-adjunto do “João Semana”, logo fomos aclarando as razões e os contornos da viagem, iniciada na estação do caminho de ferro de Ovar, em que, pouco depois da chegada da linha férrea até Gaia (1863), “um pobre homem da Póvoa”, como se retratou Eça de Queirós, abriu o seu romance “A Capital”, com o protagonista Artur Corvelo a embarcar para Lisboa.
Passámos Espinho, onde, naquele tempo, alguns comboios paravam, exclusivamente para carregar peixe da arte xávega, ali introduzida pelos pescadores de Ovar.
Até Campanhã houve lembranças de Lúcia, um dos videntes de Fátima, que viveu, em jovem, em Gaia e no Porto. Em curta correria, tomámos o metro para a Póvoa, um percurso que até há pouco era feito por comboio, e atravessámos as terras da Maia, onde diversos santeiros produziram para todo o mundo milhares e milhares de imagens da Virgem da Cova da Iria.
O antigo convento e o aqueduto de Vila do Conde, e a figura tutelar de José Régio, o poeta dos "Poemas de Deus e do Diabo", dos Cristos Crucificados e de "uma Nossa Senhora de madeira arrancada a um calvário de capela", deram-nos sinal da proximidade da Póvoa.

Sabores e saberes
Tal como tinha sido combinado, esperava-nos junto à velha estação poveira o arquiteto Rui Bianchi, assessor do município, que nos guiou até ao Museu Municipal, onde nos esperava a diretora, Dr.ª Deolinda Carneiro. Pouco nos faltava para se concretizar o móbil da visita. Ei-lo, o inquérito a Lúcia, bem guardado numa vitrina, no centro da exposição, junto a uma bela Virgem de Fátima (ver foto AQUI). Fazendo eu menção de fotografar o documento, a Diretora, delicadamente, com um não vale a pena, porque tenho uma cópia completa para lhe dar, convidou-nos a uma visita rápida à Exposição e ao Museu, através de salas e corredores pejados de obras de arte, detendo-se no seu gabinete, que transmitia, através de livros e de peças artísticas, o perfume e o encantamento do belo.
A visita transformava-se em festa, partilhada com alguém que, transpirando saber já provado em muitas páginas escritas com sabor à terra, ao mar, às tradições e à fé da gente poveira, nos mostrou e ofereceu fotos de imagens de Maria e catálogos de exposições de Arte Sacra ali realizadas.
A conversa fluía livre e espontânea quando, reparando num belo álbum sobre insetos, o pensamento do Fernando Pinto voou para Ovar, onde, em tempos idos, numa vasta área ribeirinha, houve marinhas de sal e campos de arroz, e que hoje são o habitat natural de plantas e borboletas raras, das mais raras que há no mundo, tal como a borboleta pavão diurno, que ainda em maio se poderia observar na foz do rio Cáster, e cuja fotografia, deste artista ovarense, tem deliciado os cibernautas.
Atento ao diálogo, o arqueólogo José Flores, marido da diretora, e que, como ela e como o jornalista do “João Semana”, se entrega a trabalhos de campo nessa área da natureza, deixou o seu gabinete, trazendo na mão um livro da especialidade, "As Borboletas de Portugal", de Ernestino Maravalhas, repleto de fotografias coloridas, uma das quais reproduzindo, nada mais, nada menos do que um daqueles delicadíssimos lepidópteros.

Cada imagem o seu gesto
A nossa pesquisa voltou-se, de novo para o documento que nos trouxe ali, o Inquérito de 1946, cuja cópia tínhamos já entre mãos, juntamente com alguns recortes de jornais estrangeiros e fotos relacionadas com Fátima. De facto,  logo pudemos  constatar que, sendo o questionário assinado pela Vidente em 09/11/1946, não poderia ter influenciado a escultura de Albano França acolhida na Igreja Matriz de Ovar quatro meses atrás, em 12 de julho desse ano, imagem que Lúcia não chegou sequer a conhecer, e que tão pouco conheceram as entidades de Fátima, que ainda em 1969 a julgavam “desaparecida”.


A 1.ª escultura do Imaculado Coração de Mariaassinada pela Casa França, existente, desde 1946, na Igreja Matriz de Ovar, com as correções pedidas pela Irmã Lúcia em 1943/44.
(O escultor não teve em atenção o “franzido do cinto”)
[FOTO: Fernando Pinto]


Chancela do escultor na base da imagem
do Imaculado Coração de Maria reproduzida acima

[FOTO: Fernando Pinto]


Irmã Lúcia junto à maqueta do Imaculado Coração
de Maria não executada pelo Padre Mc Glynn (1947),
no livro "A Vidente de Fátima Dialoga e responde
pelas Aparições", de Sebastião Martins dos Reis,
mas de acordo com a maqueta de José Ferreira
Thedim para as imagens de 1948/49 
Pelo n.º 43 do Inquérito concluímos, até, que, embora coincidindo com as informações dadas por Lúcia em 1943 e que serviram de base para o esboço corrigido por ela, em tudo correspondendo à imagem de Ovar, a resposta sobre o Imaculado Coração de Maria está direcionada para a confeção de uma nova escultura que Thedim viria a produzir e a oferecer à própria Lúcia em 1948, como recordação da sua entrada no Carmelo, mas que, não tendo agradado totalmente à Religiosa, foi substituída por outra, que lhe foi entregue em Coimbra em 1949 e que erradamente é tida como a primeira imagem daquele título, em desfavor da de Ovar, esculpida três anos antes, em 1946, pela Casa França, do Porto, em circunstâncias ainda não de todo aclaradas, e que é para Ovar motivo de santo orgulho.
A jornalista brasileira Regina Helena de Paiva Ramos, afirma no jornal "A Gazeta" de São Paulo, de 5 de março de 1958, que numa entrevista que fez a José Ferreira Thedim, este lhe contou que conversando com Lúcia, no Colégio do Sardão, em Gaia, em 1946, pouco depois do seu regresso de Espanha, iniciou um trabalho artístico. "Fiz primeiro a maqueta e depois o modelo mais perfeito em gesso. Mostrei-o à Irmã Lúcia (na foto) para que o aprovasse ou não. Depois executei a imagem e levei-a à Vidente. Ela abraçou-se à Nossa Senhora, dizendo: "É a que mais se parece com a minha mãe do Céu".


Extrato da pergunta n.º 43 do Inquérito feito pelo escultor
José Ferreira Thedim à Irmã Lúcia que o assinou em 09/11/1946

Poderá esta imagem corresponder a uma maqueta ao lado da qual foram fotografadas, em 1947, quer a religiosa, quer uma jovem noviça, ou poderá referir-se mesmo à versão definitiva de uma das imagens do Carmelo.
Apesar de não de todo esclarecedora, ficou bem marcada esta visita do “João Semana” à Póvoa do Varzim, cidade irmã de Ovar porque o mesmo mar as acaricia e alimenta, e similares tradições lhes fortalecem as almas gémeas.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de março de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/06/ovar-e-povoa-do-varzim-no-trilho-de.html


Clique neste link para ler o texto

Ovar no culto de Fátima – Uma imagem histórica na Igreja Matriz


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